ESCUTA

Reimaginar a educação através da escuta sensível

A investigação

Escutar como gesto pedagógico.

A minha investigação de doutoramento em Educação Artística, desenvolvida na Universidade de Lisboa, nasce da possibilidade de pensar a escuta não apenas como uma competência musical, mas como uma forma de atenção, relação e presença. Centrada na escuta sensível e na escuta criativa, procura compreender de que modo as práticas de escuta podem transformar a experiência educativa no 2.º ciclo do ensino básico, abrindo espaço a uma participação mais criativa, a uma relação mais atenta com o outro e a novas formas de sentir, criar e habitar a escola.

É neste contexto que emerge o conceito de sonotopia: um território sonoro, afetivo e relacional, construído coletivamente através da experiência da escuta. Mais do que um lugar físico, a sonotopia constitui um espaço de encontro, no qual os sons, os silêncios, as memórias, os corpos e as relações participam na criação de sentidos partilhados.

A investigação cruza criação artística, prática pedagógica e reflexão crítica, reconhecendo a sala de aula como um espaço vivo de experimentação e produção de conhecimento. Através de uma abordagem que articula autoetnografia, a/r/tografia e práticas de exploração e cocriação sonoro-musical, procura contribuir para a construção de uma pedagogia da escuta sensível, capaz de inspirar outros modos de ensinar, aprender e estar em relação em diferentes contextos educativos.

O percurso

A investigação ganha forma através de um conjunto de experiências pedagógicas e artísticas realizadas com alunos do 5.º e do 6.º anos do ensino básico português, com idades compreendidas entre os 10 e os 11 anos. Organizadas como um percurso vivo, estas experiências entrelaçam escuta sensível, exploração sonora, criação coletiva e reflexão, acompanhando os modos como os alunos percecionam, sentem e moldam o ambiente educativo que habitam.

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Autobiografias sonoras e reflexão

O processo começa com a construção das autobiografias sonoras dos alunos, através da exploração das memórias, músicas, vozes e paisagens sonoras que marcam as suas vidas e da reflexão sobre a diferença entre ouvir e escutar.

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Escuta sensível

O processo prossegue com a escuta sensível, através de gravações, entrevistas, caminhadas sonoras e da construção de mapas sonoros, procurando compreender como os alunos escutam a escola e os espaços que habitam.

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Escuta criativa

Segue-se a escuta criativa, um momento em que as experiências de escuta são reinterpretadas através da composição de canções originais, de improvisações e de outras formas de criação sonora.

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Sonoplastia e edição digital

As primeiras sonoplastias criadas pelos alunos são desenvolvidas através de experiências no Audacity, que envolvem a gravação e a edição sonora.

Sonoplastia #1

Sonoplastia #2

Sonoplastia #3

Uma nota pessoal

Um caminho em permanente construção.

Esta investigação parte do desejo de compreender de que forma a escuta sensível e a escuta criativa podem contribuir para repensar a Educação Musical e tornar a escola um espaço mais atento, participativo e criativo.

Durante o primeiro ano de trabalho de campo, desenvolvi com os alunos diferentes experiências pedagógicas e artísticas, entre as quais mapas sonoros da escola, entrevistas e gravações, canções originais, autobiografias sonoras e experiências de sonoplastia digital. Cada proposta permitiu explorar diferentes formas de escutar, criar e participar, dando corpo a um percurso que se foi enriquecendo através da experiência partilhada.

À medida que o trabalho avançava, surgiu uma nova pergunta:

Até que ponto escutei verdadeiramente os meus alunos?

Esta questão levou-me a refletir sobre o lugar das suas vozes, escolhas e interesses na construção destas experiências artístico-educativas. Durante as últimas semanas de aulas, perguntei-lhes: «O que gostariam de fazer no próximo ano?» As suas respostas abriram novas possibilidades e ajudaram-me a repensar a forma como este percurso poderá continuar.

Regressei, então, às reflexões de autores como Carl Rogers, Paulo Freire e José Pacheco sobre autonomia, participação, confiança e uma educação centrada no aluno. O segundo ano do projeto acolherá estas perspetivas, atribuindo aos alunos um papel mais ativo na construção das experiências educativas e dos seus próprios percursos de aprendizagem. Partindo dos seus interesses, contribuirão para definir propostas e projetos, individuais e coletivos, assumindo uma responsabilidade crescente e desenvolvendo uma maior autonomia ao longo do processo.

Um passo seguinte consistirá em alargar esta escuta aos meus colegas professores, procurando compreender em que projetos gostariam de participar e explorar de que forma a escuta e a criação sonora podem promover a colaboração interdisciplinar na escola. Comecei já a idealizar projetos que articulam a Educação Musical com o Português e a Educação Visual, a Música com a Físico-Química e a Música com a Matemática. Estas colaborações poderão abrir novas formas de pensar a escola enquanto espaço partilhado de investigação artística, diálogo e criação coletiva.

Hoje, reconheço que uma das aprendizagens mais importantes deste primeiro ano foi compreender que investigar a escuta sensível exige questionar não apenas aquilo que escuto, mas também a forma como escuto, as vozes às quais dou espaço e o modo como essas vozes podem participar ativamente na construção do percurso educativo.

Ana Raquel
Sobre

Ana Raquel

Artista Educadora Investigadora

Investigadora, educadora e artista. A sua prática desenvolve-se na confluência entre a investigação, a educação e a criação artística, explorando a escuta sensível enquanto experiência estética, ética, relacional e pedagógica. É também saxofonista, performer e compositora, articulando música, criação sonora, performance e práticas artísticas participativas.

É doutoranda em Educação Artística na Universidade de Lisboa, no Instituto de Educação e na Faculdade de Belas-Artes, e mestre em Ensino da Música pela Escola Superior de Música de Lisboa. Desde 2024, é docente no Instituto Superior de Ciências Educativas (ISCE), onde leciona nas áreas da Música e das Expressões Criativas Integradas, e professora de Educação Musical no Instituto de Ciências Educativas (ICE), com alunos do 2.º ciclo do ensino básico.

É fundadora do ESCUTA, um projeto de investigação, criação e mediação sonora e artística dedicado ao desenvolvimento de práticas de escuta sensível e criativa com crianças, educadores, artistas e comunidades. Ao longo do seu percurso, tem colaborado com diferentes artistas, companhias e estruturas culturais, entre os quais o Teatro O Bando, Casa d’Avenida, Lavrar o Mar, Suzana Branco, Raquel Belchior e Plano Nacional das Artes, participando em projetos que articulam música, teatro, performance e criação comunitária.

Apresenta regularmente o seu trabalho artístico e científico em encontros nacionais e internacionais. Entre as participações mais recentes, destacam-se a 32nd EAS Conference & 10th ISME European Regional Conference, em Évora, e o VII Fórum Internacional de Investigadores e Críticos de Teatro para Crianças e Jovens, em Buenos Aires, ambos em 2025, bem como o Congresso Internacional de Educação Artística, realizado no Funchal, em 2026. Em julho de 2026, participa, em Montreal, no MISTEC Pre-Conference Seminar e na 37th ISME World Conference, onde apresenta diferentes dimensões da sua investigação e da sua prática artístico-pedagógica.

Contactos

Vamos escutar-nos.

Para colaborações, oficinas em escolas, formações, apresentações ou simplesmente uma conversa:

Membro associado

APEM — Associação Portuguesa de Educação Musical ISME — International Society for Music Education

Investigação doutoral

Universidade de Lisboa Instituto de Educação — Universidade de Lisboa Faculdade de Belas-Artes — Universidade de Lisboa

Apoio à Formação e Especialização Internacional · 2025 · 2026

Fundação GDA