Mapas Sonoros
O processo inicia-se com a escuta sensível, através da realização de gravações, entrevistas, caminhadas sonoras e construção de mapas sonoros, procurando compreender como os alunos escutam a escola e os espaços que habitam.
Um lugar para escutar.
A minha investigação de doutoramento em Educação Artística, desenvolvida na Universidade de Lisboa, centra-se na escuta sensível e na escuta criativa enquanto paradigmas para a Educação Musical no 2.º ciclo do ensino básico. O principal objetivo consiste em compreender de que forma práticas de escuta podem contribuir para reconfigurar os ambientes educativos, promovendo uma participação mais criativa, uma maior atenção ao outro e novas formas de habitar a escola. O conceito de sonotopia emerge neste contexto como um território sonoro e afetivo construído coletivamente através da experiência da escuta.
A investigação articula criação artística, prática pedagógica e reflexão crítica, assumindo a sala de aula como espaço de experimentação, observação e produção de conhecimento. Através de uma metodologia que combina autoetnografia, a/r/tografia e práticas de exploração e cocriação sonoro-musical, procura desenvolver contributos para uma pedagogia da escuta sensível que possa ser transferida para diferentes contextos educativos.
A investigação desenvolve-se através de um conjunto de experiências pedagógicas realizadas com alunos do 2.º ciclo, organizadas como um percurso vivo.
O processo inicia-se com a escuta sensível, através da realização de gravações, entrevistas, caminhadas sonoras e construção de mapas sonoros, procurando compreender como os alunos escutam a escola e os espaços que habitam.
Segue-se a escuta criativa, momento em que as experiências de escuta são reinterpretadas através da composição de canções originais, improvisações e outras formas de criação sonora.
Ao longo deste percurso, os alunos refletem sobre os processos de criação coletiva, questionam a diferença entre ouvir e escutar, constroem as suas autobiografias sonoras — explorando as memórias, músicas e paisagens sonoras que fazem parte das suas vidas — e iniciam experiências de criação de sonoplastias e edição sonora em ambiente digital.
As primeiras sonoplastias criadas pelos alunos são construídas através de experiências no programa Audacity, explorando gravação, camadas, edição e cocriação sonora.
Cada uma destas etapas constitui simultaneamente uma experiência educativa e um dispositivo de investigação, permitindo compreender de que forma a escuta sensível pode contribuir para transformar as relações, os processos criativos e os ambientes de aprendizagem.
A investigação nasce de uma pergunta de partida, de um enquadramento teórico e de um desenho metodológico cuidadosamente pensado. No meu caso, esse percurso começou com a intenção de compreender de que forma a escuta sensível e a escuta criativa poderiam contribuir para reconfigurar a Educação Musical e transformar a escola num espaço mais atento, participativo e criativo.
Ao longo do primeiro ano de trabalho de campo desenvolvi um conjunto de experiências pedagógicas que procuraram aproximar os alunos da escuta sensível — mapas sonoros da escola, entrevistas e gravações, canções originais, autobiografias sonoras e as primeiras experiências de sonoplastia digital.
Foi um percurso pensado ao detalhe. Fui eu quem definiu as atividades, organizou a sequência do trabalho e desenhou as propostas de investigação. No entanto, à medida que o ano letivo se aproximava do fim, começou a surgir uma inquietação que me surpreendeu e, de alguma forma, me frustrou:
Até que ponto escutei verdadeiramente os meus alunos?
Nas últimas semanas de aulas decidi suspender, por momentos, o papel de quem propõe e perguntar simplesmente: “O que gostariam de fazer no próximo ano nas aulas de Educação Musical?” Foi uma pergunta aparentemente simples, mas profundamente transformadora.
Esta inquietação levou-me a regressar a autores que me acompanham há algum tempo, como Carl Rogers, Paulo Freire e José Pacheco. As suas reflexões sobre autonomia, participação, confiança e aprendizagem fazem-me hoje olhar para a investigação com novas perguntas. O segundo ano desta investigação será, por isso, inevitavelmente diferente.
Hoje compreendo que a maior descoberta deste primeiro ano de investigação foi reconhecer que investigar a escuta sensível exige aceitar que eu própria continuo a aprender a escutar.
Musicista, saxofonista, performer, compositora, artista-educadora e docente universitária portuguesa. A sua prática desenvolve-se na confluência entre a criação artística, a educação e a investigação, explorando a escuta como experiência estética, ética e pedagógica.
Doutoranda em Educação Artística na Universidade de Lisboa (Instituto de Educação e Faculdade de Belas-Artes) e Mestre em Ensino da Música pela Escola Superior de Música de Lisboa. Docente do Instituto Superior de Ciências Educativas (ISCE) e professora de Educação Musical no Instituto de Ciências Educativas (ICE).
É fundadora e directora artística do ESCUTA — plataforma de investigação, criação e mediação artística dedicada ao desenvolvimento de práticas de escuta sensível e criativa para crianças, educadores, artistas e comunidades. Do seu percurso enquanto artista destaca-se a colaboração com o Teatro O Bando, Casa d’Avenida, Madalena Victorino, João Brites, Suzana Branco e Raquel Belchior, entre outros.
Apresenta regularmente o seu trabalho em congressos nacionais e internacionais, com passagens recentes pela 37th ISME World Conference (Canadá), EAS Conference 2025 (Évora), Fórum Internacional de Investigadores e Críticos de Teatro para Crianças e Jovens (Buenos Aires) e Congresso Internacional de Educação Artística (Funchal, 2025).
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